Por Celso William Cardoso Rodrigues
(adaptado de texto do autor publicado no livro
“Fé, Alegria e comunhão: Memórias de uma geração de jovens da IPI de Iepê”)
Na história de nossa juventude na Igreja Presbiteriana Independente de Iepê, na década de 70, algo a ser lembrado foi uma novidade incrível trazida pela Dona Eunice Sant’Ana Málaque e sua turminha: um teatro de fantoches.
Por aquele tempo, ou fazíamos encenações no pavilhão ou passávamos estáticos slides; além disso, contávamos tão somente com cartazes e o flanelógrafo para contar histórias. De repente, algo novo e emocionante nos foi apresentado.
O miniteatro era construído de madeira compensada, de forma a esconder os operadores dos bonecos, que eram feitos de massa de papel higiênico batida no liquidificador com cola (o “papel machê”). As cabeças dos bonecos eram moldadas manualmente; e, depois de secas, colocava-se uma roupa característica, adequada ao personagem.
Dona Eunice e seus filhos, utilizando-se de um toca-discos de vinil posicionado onde o som pudesse melhor se propagar à plateia, colocavam para tocar discos compactos em que narradores profissionais, tal como nas antigas novelas de rádio, contavam estorinhas folclóricas ou de cunho moral ― a exemplo das fábulas de Esopo, de La Fontaine.
Era todo um arsenal de bruxas, Lobo Mau, porquinhos, Chapeuzinho Vermelho, João, Maria, passarinhos e borboletas colados numa haste, gaiola, casinhas, árvores, todo material que a diretora das peças, Dona Eunice, utilizava na escola em que ministrou aulas ou foi diretora, e que aproveitava para utilizar na igreja como atrativo à criançada.
Chegamos a ter por volta de 300 crianças na plateia, ou seja, a criançada da cidade toda vinha assistir. Tudo isso somado a uma intensa movimentação (e animação) de preparo, do tipo montagem do palquinho ou separação por história. Logo, nós adolescentes fomos aprendendo o ofício de operadores de fantoches.
Eu não tinha muita habilidade, mas ajudava em funções como segurar a gaiola ou virar o disquinho. Metade da história ficava de um lado do disco e a outra metade, do outro, o que gerava uma inconveniente e pequena parada na encenação. Os bonecos de vez em quando precisavam ser renovados porque os carunchos os devoravam com uma facilidade incrível.
Os disquinhos eram muito frágeis e como eram muito manuseados ― seja pela atividade teatral, seja pela Ceila e Keila que não se cansavam de ouvi-los a semana toda ― acabavam riscados, o que provocava alguns eventos não muito agradáveis na encenação.
Lembro-me que um dia, quando encenávamos “Os três porquinhos”, o danado do disquinho engasgou, ou melhor, a agulha ficou pulando e repetindo: “meus amiguinhos, quando o Lo”, e repetia emendando toda a frase: “Quando o Lo / meus amiguinhos, quando o lo meus amiguinhos…”
Os operadores congelaram! E, naqueles poucos segundos que pareceram uma eternidade, o José Ulisses ― ainda criança, mas caboclo esperto e ágil ― desvestiu o Lobo de sua mão e, com uma cara de Lobo Mau, ou melhor, de bravo, correu até o toca-discos que ficava a uma certa distância e era visível à plateia. Tentou então a intervenção comum em tais situações: dar um leve tapa para ver se agulha desenroscava e encontrava o caminho certo da trilha. A danada naquele dia, ao invés de desenroscar, simplesmente correu até o final do disco, até ao eixo do mesmo, num Zoooooommmm.
A plateia veio abaixo em gargalhadas que demoraram a cessar. E os operadores também… A encenação parou, e logo vários vieram em socorro do Zé para reposicionar a agulha na história. O certo é que, depois de todo um momento hilário e descontraído, tudo foi solucionado e a peça continuou até o fim.
Eram sessões muito agradáveis, de muita arte e filosofia de vida atraentes à criançada, que levava junto uma boa pregação do evangelho. E nos ocupavam com atividades educativas e saudáveis ― às crianças e a nós, adolescentes, membros do grupo possuidor do alto status de operadores de fantoches.







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