Crônica do Futuro 2

Por Keila Málaque - 3.4.19

Encontro em comemoração ao centenário da chegada das famílias Salviano, Barreto, Prado e Almeida ao Sertão dos Patos (Iepê) - 1918-2018
– Autora: Keila Málaque –

A parentela de antigamente gostava de comemorar centenários (que bom que o faziam!).  Além de descobrir detalhes da própria história, era sempre uma chance de reunir a família em situação mais alegre do que em velório. E quando olhavam pra trás – para os tios, avós e bisavós que já tinham partido – o que surgia era o passado na roça. Fazia lembrar que, por mais urbanos e tecnologizados que tenham se tornado, suas histórias fortes continuavam sendo com a terra. Foi assim na comemoração do centenário da chegada ao Sertão dos Patos. Sertão e pato – mato e bicho.

Lembraram nos quarenta e tantos porcos que o Antonio Nato tocava a pé até Taciba ou nos tatus de antigamente, que tinham o péssimo hábito de desenterrar defuntos do cemitério. E certa vez tio Quim tentou cooptar o Paulo (neto do Chiquito Salviano) pra desatolar uma vaca enterrada no barro – e bem que se esforçaram, mas um enxame de abelhas investiu sobre eles e a pobre continuou atolada. O Davi Camilo, por sua vez, caçou uma lebre que nenhuma tia quis cozinhar – a não ser a tia Sinhana, que era especialista nas comidas da roça.

Virado de banana, por exemplo. Com ele, ela fazia uma bola para as crianças a que dava o nome de capitão. Tinha também o leite com farinha (feita em monjolo), o lombo de porco recheado, a coalhada de leite não fervido ou o doce de leite. Certa vez a tia Laura obrigou a Zica a comer uma bacia de biscoito de polvilho (que a menina aprendesse a não ter olho gordo). Os modos da roça...

Almeidas tinham pavor de chuva, mas tinham também um jeito bem deles de falar baixo, e quando alguém começava a levantar a voz, um outro dizia: na paz é mió.  E além de mió, diziam que o negócio era enleado, que as crianças daninhavam muito e que os moleques eram traquinas ou sem modeza. O tio Quim, quando o orador era ruim, falava que era muito tiro pra pouca pórva. Tiradas da roça.

Como as do José Barreto.  Passando certa vez pelo sítio do primo Pedro Aleixo (de Macatuba), lhe perguntaram o que fazer com as formigas que atacavam o "mandiocá": se plantar mais mandioca as formigas não vencem. E por que levava consigo aquelas sementes de jatobá? Planto o jatobá no caminho de ida que é pra colhê no caminho de vorta. A sabedoria da roça.


Tio Quinzinho
José Barreto

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